Desabafos e outros dramas

Sobre respeito, auto estima e privilégio

Ser magra, do tipo capa de revista, num mundo onde padrão é mais valorizado do que inteligência é privilégio. E eu vou explicar porquê é muito complicado para mim aceitar isso.

No sábado, fui para uma “baladinha”. Coisa fina, alto de um prédio, ingresso barato. Sucesso. Fui sóbria porque estou num momento de parar de beber – meu metabolismo é muito lento e a bebida tem dado uns revertérios no meu organismo.

Parei de beber porque ainda estou em processo de controle da saúde, da compulsão e do peso. Não posso ser pesada: minhas pernas incham demais, tenho histórico de varizes e problemas de circulação na família, além de já ter tido problemas com colesterol alto e resistência a insulina (estágio comumente chamado de “pré-diabetes”). Ou seja: se eu não cuido do meu peso, controlo o que eu como e faço exercícios, eu tenho problemas que vão além do “essa calça não está me servindo”.

Eu odeio isso. Queria poder comer tudo o que desse na telha sem neura com saúde. Só que, depois de um susto, depois de perder minha mãe para hipertensão e diabetes, depois de ver meu pai sofrer com problemas no coração, eu não posso. Essa neura é necessária para que eu tenha uma expectativa de vida maior do que a da minha mãe, por exemplo, que faleceu aos 61 anos em decorrência dos problema de saúde citados acima.

Eu sei que não preciso justificar emagrecimento e que o corpo é meu – logo, faço o que quiser com ele. Não preciso justificar mas preciso contextualizar, principalmente porque é a primeira aparência – infelizmente, a cara da gente ainda é cartão de visita. E, independente de eu me achar muito bonita, de ser legal, inteligente, uma ótima dançarina e uma pessoa boa, é raro quando esse olhar me vem.

Meu namorado – que, aliás, tem feições muito parecidas com as minhas – tem um corpo perfeito: ombros largos, forte, barriga de tanquinho, músculos dos braços delineados. É realmente um corpão do qual ele se orgulha tanto quanto eu.

E é aí que a coisa pega.

Como assim, esse menino todo cheio de saúde, forte, um touro, está com uma menina “relaxada” assim?

Nossa, ela deve ter dinheiro.

Ah, isso aí é “feitiço”, é “macumba”, só pode!

E por aí vai. Nada que eu já não tenha ouvido antes. Só que eu não sou relaxada. Eu não sou nem gorda. Eu estou acima do peso, sim, mas não sou gorda. Não sou, tampouco, magra. Estou ali num limbo onde julgam minha barriga mas ninguém vê o esforço que eu já fiz e que, se diminui ali, foi consequência de segurar uma compulsão alimentar, passar por uma reeducação, aprender a moderar e controlar o apetite e fazer escolhas que não fossem me prejudicar no futuro.

É muito fácil olhar meus braços, minhas pernas, meu corpo, e achar que eu não sou boa o suficiente para estar ali, com meu namorado. Aliás, a depender de muita gente, nem de amor sou digna, só de pena. Ah, talvez seja isso…

No contexto da festa, me senti intimidada. Porque ali o olhar de julgamento vinha de todos os lados. Assim como as meninas que, mesmo me vendo aos beijos com meu namorado, foram “chegando” nele – porque, no fim das contas, é muito difícil acreditar que um “homão” como ele fique com alguém como eu.

Sei que uma parte do processo é aprender a lidar com esse tipo de coisa. Eu não devo nada – NADA – para ninguém. Nem para o meu namorado, aliás. Eu devo a mim mesma não me abalar com esse tipo de coisa e continuar nessa batalha diária de controle da ansiedade, de entender o comportamento do meu corpo, de estudar escolhas melhores e alternativas saudáveis que vão me fazer bem e me satisfazer.

Elas, as meninas, não são um problema.
Meu namorado definitivamente não é um problema – inclusive, ele conseguiu compreender quando expliquei tudo isso.
A sociedade que a gente vive, que coloca mulheres em posição de rivalidade, que julga quem está acima do padrão “borboleta” da capa da revista, que aponta o dedo e te chama de inadequada o tempo inteiro, que não respeita a escolha do outro (no caso, a do meu namorado de estar comigo e me apoiar nesse processo), é que está errada. Muito errada.

Eu sou adequada. Eu sou linda. Eu sou amada. Eu amo de volta. E eu estou lutando contra problemas invisíveis que não tem nada a ver com meu peso ou autoestima, mas com a minha saúde.

Há batalhas que eu não faço questão de ganhar. A guerra contra os danos que eu causei a mim mesma, essa sim, vou conquistar.

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3 comentários em “Sobre respeito, auto estima e privilégio

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